quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dia Três do Primavera

O terceiro dia do festival começou com a deslocação ao Parque da Cidadela para ver os concertos ao início da tarde. Após uma grande volta ao parque comecei a ouvir o teste de som e descobri o sítio dos concertos. Assistimos aos concertos de La Sera e de Magical Cloudz. O primeiro concerto decorreu sempre sob a ameaça da chuva que acabou por não cair de forma a cancelar o concerto, o palco era ao ar livre. La Sera é a banda de uma dos elementos das extintas Vivian Girls, e as suas canções seguem a mesma linha sónica, de melodias cantaroláveis e refrãos que são fáceis, tudo em baixa fidelidade. Acabei por comprar um CD directamente à banda para mais tarde recordar a alegria do concerto sob um céu cinzento. Já Magical Cloudz foi um concerto bastante mais tenso. Com a presença de apenas batidas, sons de um teclado e voz baritonal do vocalista principal, este duo canadiano trouxe consigo uma negritude que até aqui não se tinha ouvido no festival. Foi um dos concertos mais enigmáticos, talvez pela mistura entre esta tensão presente em todas as canções aliada a uma simplicidade desarmante na construção das canções. Segui depois para o recinto principal do festival. Cheguei a tempo do início do concerto de Mas Ysa, o concerto de Linda Perhacs tinha sido cancelado. Mas Ysa é um só e apresenta canções em forma de sequências que não terminam à qual vai acrescentando elementos mais elementos, na boa tradição de alguma da melhor electrónica do início deste século. Um concerto que assisti bem em frente ao palco, seríamos duas centenas de pessoas no máximo. Concerto solar de sons muito claros e canções fractais, por vezes cantadas, outras vezes não. Para ir descobrindo ao longo dos próximos tempos. Depois dirigi-me para um dos palcos principais, não sabia bem o que ia ver a seguir. Quando cheguei a chuva começou a cair ininterruptamente já depois do início do concerto de John Grant. Como o concerto não me estava a parecer nada de especial resolvi abrigar-me junto à entrada do recinto do festival bem longe da zona destes palcos. Foi nesta altura, após esta carga de água, que surgiram os arcos-íris documentados em todas as fotografias de reportagem deste ano do festival. Eu apenas consegui apanhar um com a lente do meu telemóvel. Quando a chuva começou a parar começou o concerto de Loop logo ali no palco ao lado. Acabei por não ver até ao fim, não estive muito focado nos concertos do revivalismo das bandas dos finais dos anos oitenta e início dos noventa, que se juntaram para este festival e as canções dos Loop pareceram-me quase indistintas, e claro que estou a ser injusto para a banda e para o movimento de guitarras inglesas que repetem os acordes até à eternidade com recurso a pedais e mais pedais, só que não estive nessa onda. Regressado ao espaço dos palcos principais reencontrei-me com a minha mulher, que tinha ido descansar ao hotel, para assistir ao concerto das Haim. Como classificar o concerto delas? Agridoce, será a palavra mais acertada. Foi um concerto que misturou momentos tranquilos e mais redondos, com outros mais agitados a demonstrar uma banda mais agressiva do que se pensaria depois de ouvir o disco. Preferimos as canções como estão gravadas aos longos momentos de improviso a que assistimos em concerto. Seguimos depois para o concerto de FKA Twigs. Apresentou-se em palco com três músicos que emitiam as batidas lentas, toda a produção R&B da escola inglesa pós-dubstep, pós-trip-hop, pós-tudo. E sobre isto a voz angelical da FKA. Foi um concerto em crescendo, já que no fim a voz estava mais solta e mais confiante. Dava a nítida sensação que estava a actuar pela primeira para um público tão dilatado, mas isso não a intimidou. Antes pelo contrário, do meio das suas danças meio orientais, surgiam temas que agarraram a plateia do início ao fim do concerto. Levou uma grande ovação. Depois do concerto, e uma vez que tinha decidido deixar o concerto de The War on Drugs para Lisboa, decidimos ir jantar e acabámos no meio do concerto de Pixies. Não direi que terá sido a melhor decisão. Assistir hoje a um concerto de Pixies é recordar os concertos de regresso da banda em que nada mais parecia importar que cantar todas as canções clássicas que tornaram os Pixies uma referência. Naquele momento foi apenas entediante. Já um pouco diferente foi assistir ao concerto dos The National. Confesso que fiquei com algum receio de assistir a mais um momento de celebração quase sem sentido por parte do público, tal como num concerto na Aula Magna há uns anos atrás. Ao invés assisti a um bom concerto da banda. Com uma produção vídeo muito cuidada e com os temas a serem perfilados de uma forma consistente por uma banda adulta, que ora acelera o ritmo numa canção mais veloz, ora desacelera para uma quase-balada, de canções com valor. O vocalista, já se sabe, é dado à dramatização, deixa cair muitas vezes o microfone no chão, invade o público e ofende os colegas de banda. Tudo faz parte da encenação e do espectáculo. Fiquei quase fã. Para o fim e também porque iria ver SBTRKT em Lisboa, optámos por assistir ao concerto de !!!. O concerto foi mediano, já que as novas canções da banda ficam muito aquém dos primeiros discos. Valeu pelo tema "Me and Giuliani Down by the Schoolyard" e pouco mais. No fim da noite sentámo-nos no anfiteatro do palco Ray-Ban, porque o cansaço acumulado já era bastante, para assistir ao último concerto do dia, Jagwar Ma. Seria o concerto indicado se ainda existissem energias para absorver todo aquele psicadelismo electrónico do fim dos anos oitenta vindo de Inglaterra da cidade de Manchester, que parecia estar a ser bom, mas este festival não seria mesmo dedicado a esse revivalismo, estava visto.

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