segunda-feira, 20 de março de 2017

Inverno

As estações do ano estão a ficar diferentes. Estamos no Inverno e parece que já é quase Verão e para a semana será Inverno novamente, apesar de começar a Primavera. A confusão é muita mas vamos tentando ver o lado melhor de tudo isto, fomos feitos para uma estação do ano apenas. Durante muito tempo a minha estação foi o Verão, ou a Primavera-Verão, como se diz no mundo da moda. Com o passar dos anos tornei-me invernal. Fui-me tornando Inverno. O Inverno é frio, só temos sol de vez em quando com as nuvens sempre a ameaçar voltar, são nortadas fortes e chuva na cidade. Damos valor ao aparecimento do sol. É no Inverno que neva, apesar de na minha cidade não nevar. Hoje que estamos a terminar mais um Inverno já só conto os dias que faltam até o próximo Inverno começar. E pensar que tudo começou com a preferência natural do Verão deste clima mediterrânico para terminar a pensar que poderia ser sempre Inverno.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Dias de Grandvalira

Os dias de Grandvalira foram incríveis como estávamos à espera, passados num paraíso natural transformado pelo homem numa grande área esquiável, com neve quase virgem ao início da semana e no fim tratada durante a noite e com todas as pistas e zonas abertas para esquiar e descer para voltar a subir. Grandvalira é uma estância de esqui imensa e com pistas para todos os níveis, há dezenas de telecadeiras e algumas telecabines para nos levar até aos topos, num serviço de imensa qualidade, mesmo em condições meteorológicas adversas. O início da semana foi marcado por ventos quase ciclónicos a partir do meio do dia e temperaturas negativas e o fim da semana trouxe o sol e temperaturas primaveris. Do Inverno rigoroso à Primavera solarenga em apenas alguns dias no domínio montanhoso andorrenho. São dias para mais tarde recordar, tal como noutros anos anteriores em que estivemos neste local.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Paisagens de Montanhas

São paisagens de montanhas e mais montanhas com cumes cheios de neve, teleféricos e comboios que nos levam até lá. Começamos a subir e passamos pelo meio das nuvens baixas que depois parecem algodão sobre as margens dos lagos, e vemos as cordilheiras, os vales, as escarpas, as rochas e a neve. Ao chegar apanhamos o comboio que nos leva até ao topo, são linhas ferroviárias antigas e um meio de transporte no meio da montanha, que tanto serve para levar os amantes de desportos e actividades invernais como os turistas nipónicos que invadem estes lugares. A sensação de um país das mil maravilhas, de um tempo cristalizado, de uma paisagem deslumbrante, de árvores, bosques, caminhos estreitos, pistas de esqui e trenó, com vários locais para passar a noite e relaxar, seja a apanhar sol numa cadeira seja nas termas. Tão depressa não esquecerei este dia nas montanhas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dia de Folga

Seria um dia como todos os outros da semana com a diferença que não iria trabalhar. Aproveitei para acordar à mesma hora de sempre e fui ao ginásio de manhã. Voltei a casa para almoçar e saí novamente a seguir ao almoço e fui ao meu antigo colégio. A cidade natal a ser percorrida de lés a lés, de autocarro, de metro, de comboio. Regressei a uma das avenidas em que mais gosto de passear a pé, lanchei numa pastelaria típica da minha cidade, um pastel, um sumo natural e uma bica. Depois fui buscar o meu filho à creche, tive uma reunião com a educadora e voltei para casa com a minha sogra, que nos deu boleia de volta. Há dias em que a recordação é inesperada e repentina. Não foi assim neste dia, a recordação do dia que passou foi programada como se fosse um dia normal de trabalho, com horas para cada uma das tarefas diárias. Assim se passou um dia de folga a meio da semana.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Reviver

Os dias de Janeiro são passados na nova rotina que já começou a tornar-se habitual. O frio destes dias é normal para a época, lembra-me os anos anteriores. Se na nossa terra o frio varia entre os dias de nevoeiro e os dias de sol e luz, noutras paragens tem provocado os maiores nevões dos últimos anos. Este será o ano do regresso a Andorra e às paisagens dos Pirinéus e até lá vamos preparando e pensando na viagem e na estadia. Será uma semana branca no meio das montanhas, de cansaço físico e descanso mental. Mas será sobretudo, como já o foi no Inverno passado, um regresso no tempo às viagens de família nos anos noventa, para recordar o tempo que já foi. O passado torna-se presente, sempre a mesma tónica no destino, na viagem, nas pendentes. Reviver os momentos que mais nos marcaram e que estão no mais profundo da nossa memória.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Papel Secundário

Ser pai é estar preparado para poder substituir a mãe nas ocasiões em que isso é preciso. Aparentemente pode parecer um papel secundário ou alternativo, mas não o interpreto assim. Estar preparado para substituir a mãe é estar à altura dela e só isso já é muito. Acordar cedo e ouvir o nosso primogénito a chamar pela mãe, para depois pegá-lo ao colo, no forte abraço matinal de mais um dia é como regressar aos braços dos nossos pais quando ainda mal dizíamos as primeiras palavras. A mãe descansa e é hora para fazer a papa e ver os bonecos animados da manhã. Acordar com uma criança madrugadora é assim, sorrisos a toda hora e exigências de mudança de programa. O papel secundário é afinal o papel principal, somos pais e estamos cá para os nossos filhos.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Vida velha

Hoje é o primeiro dia de Janeiro. É Inverno, faz frio e o aquecimento está ligado. A minha família dorme a sesta e estou a ouvir canções para comemorar a entrada no novo ano. Vou buscar uma manta para me aquecer um pouco mais e escrevo mais umas palavras. Este ano tudo vai mudar como mudou nos anos anteriores. Esta é a novidade pouco nova. Ou a repetição do tempo cronológico que se vai marcando nos dias do calendário perpétuo. Ano novo, vida velha. Vida velha e vivida. São assim as primeiras palavras do ano, cheias de antiguidade e de frieiras nas mãos. Talvez este seja só mais um ano que passa ou então será o último dos anos, aquele que marca e fica para sempre. Será o que for, o que o tempo, as flores, as nuvens, a atmosfera, o fumo e as cores deixarem ser. Como o fim desta canção que agora oiço e só tem guitarras e ritmo a decrescer até terminar.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Já está

Ao início do dia chegou o bolo, com uma figura tridimensional de um boneco animado, o seu preferido. Ao início da tarde chegaram os balões para a festa. Tudo se ia preparando para a festa do segundo aniversário. A meio da tarde fomos buscá-lo à sala na creche e cantámos os parabéns com todos os meninos da sala e as educadoras. Tinha uma coroa com o número dois e comeu três vezes um pedaço de bolo. Depois repetiu várias vezes "já está" e fomos para casa em família. A festa ia começar. Primeiro chegaram os bisavós e depois os avós e os tios. Chegou o momento principal, acendemos a vela do bolo de aniversário e começámos a cantar os parabéns a você. O momento mais especial ficou guardado até ao fim da canção. Nesse momento o nosso filho soprou a vela como gente grande e sorriu. Por fim repetiu várias vezes "já está". Foi nesse momento que se celebrou a vida de uma criança muito querida e assim se cumpriu o seu segundo aniversário.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Comboios

São comboios que apanho dentro da cidade para me movimentar. A vantagem dos comboios sobre outros meios de transporte é a sua passagem à hora programada. Por norma os comboios chegam sempre à mesma hora todos os dias. Isso permite imaginar uma rotina programada, um período de saídas de casa a horas específicas. A nova rotina que já se instalou não permite atrasos ou experiências. São horas específicas para acordar, para comer, vestir e sair. Apesar de ir sozinho, vou acompanhado por muita gente que tem exactamente a mesma rotina e raciocínio. O comboio pára nas estações, as pessoas entram e saem, o comboio segue a sua viagem até ao destino final, até chegar o dia de amanhã. No meio do caos de trânsito automóvel que se apoderou da cidade, andar de comboio pode significar a pacificação da deslocação pendular que obrigatoriamente todos temos de fazer para ir e voltar do trabalho.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Palidez

Já não há muito mais para escrever no meio deste Outono que se vai instalando. Constato essa chegada nas folhas que caem das árvores, nas estradas em que circulo, fazendo viagens de ida e volta de um destino para outro. São folhas castanhas, amarelas, pálidas, velhas, caducas que caem lentamente ao som e sabor do vento. São pálidas e lindas. Caem pelo chão. Descrever este vislumbre é olhar para esse momento da descida da colina quando estamos parados no sinal vermelho à espera de arrancar. Coloco a primeira mudança e acelero até chegar ao sono tardio de mais um dia que passa. Esta magia de tudo acabar e recomeçar de novo, a palidez que vira alegria, a velhice que se torna infância, a época das luzes nas cidades que regressa todos os anos. Será que haverá algo mais para escrever.

domingo, 20 de novembro de 2016

Velhos

A noite parecia ser mais uma noite normal de mais um dia da semana, esperava o autocarro na paragem para ir a mais um concerto. A banda já tinha começado a tocar quando entrei na sala, havia imensa gente para entrar ainda. As canções iam sendo tocadas para gáudio de alguns e para indiferença de outros, ia encontrando amigos e conhecidos à medida que me ia aproximando da frente do palco. As canções de ritmo lento prosseguiam a sua apresentação ao vivo. Até chegar o encore, nessa altura há uma descarga rítmica e sonora mais forte, há corpos a mexer e a abanar, até chegar o fim com a última canção. Não foi o melhor concerto de sempre, foi apenas mais um concerto em que se chegou a casa ainda a tempo de descansar para o dia seguinte de trabalho. É que parecendo que não estamos a ficar velhos.

sábado, 12 de novembro de 2016

Agora

As emoções próprias destes momentos não apareceram como das vezes em que tudo estava a começar. Recordo a emoção das primeiras audições da banda que originou a editora que agora se finou. Nessa altura o coração batia rápido e certeiro, tinha encontrado algo diferente, emocionante. A partir daí construímos uma casa editorial que para a história ficará como algo entre o revivalismo do roque dos anos oitenta e uma excentricidade de alguns rapazes burgueses do Campo Grande. A noite do fim ficará para sempre marcada pela versão da nossa canção, batidas lentas e fortes e os acordes e as palavras entoadas à maneira de um funeral. Algo que nunca conseguiríamos atingir. A tarde-noite do enterro final foi um convívio como nos primeiros tempos de Alfama ou Anjos, em que éramos alguns artistas e amigos a cantar umas canções. Agora o tempo é outro, muito mais sério e regular, muito menos emocionante e muito mais previsível. Essa talvez seja a maior emoção agora.

domingo, 30 de outubro de 2016

Do Siso

Tenho tomado os comprimidos para as dores de quatro em quatro horas e fiquei em casa a descansar. A extracção de um dos dentes do siso, que teimosamente fui adiando, correu bem apesar da dureza do osso e da raiz que entortava e não deixava o dente sair. Marquei a consulta para a manhã do primeiro dia do fim de semana, para recuperar até segunda-feira. No final há mais um espaço vazio na minha boca e daqui a umas semanas arranco o último siso. A minha avó octagenária, que me telefonou à tarde para saber se tinha corrido tudo bem, disse-me logo que tinha ganho mais juízo. Como se a extracção de um dente me desse imediatamente mais sensatez e discernimento. Não deixa de ser curioso que após as mudanças profissionais e os fins anunciados de projectos editoriais haja um pouco mais de tino e de responsabilidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

Absoluto

Passou o tempo e não existiu nada para escrever. O silêncio tem tomado cada vez mais este espaço, até chegar o tempo de ser absoluto. Como os pingos de chuva que caíam enquanto esperava o autocarro da rede da madrugada com os meus antigos mocassins calçados e via os carros e os táxis a passar. Em silêncio. Isto já depois de mais uma festa de aniversário numa casa na Lapa. Prepara-se o funeral da editora que um dia foi a razão da existência deste espaço. O pensamento desse dia entristece os dias que vão passando e desse acontecimento, mas como já foi escrito antes: das ruínas construiremos o futuro, da morte faremos vida. Para já é só o silêncio que vai dominando e alastrando. Não deixo de pensar que isso pode ser bom, preparar o que vem sem dizer a ninguém o que se passa.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Dia de Trabalho

Amanhã é mais um dia de trabalho, é feriado e há trabalho para desempenhar. Não há folga de meio da semana, a compensação é justa para quem abdica do descanso para trabalhar. Tem sido assim há alguns anos, não me posso queixar porque sempre me ensinaram que quem trabalha é recompensado. No meu discurso de motivação falei acerca disso mesmo, do desempenho no trabalho, na capacidade que todos temos de melhorar apesar de já fazermos bem tantas coisas, de termos de ser nós a fazer, porque senão alguém virá fazer por nós essa mesma função. Até ao dia em que surge algo melhor, algo que compensa mais, em que somos ainda mais valorizados. Só desta forma, motivado e positivo, se evolui e se cresce. Para que o dia que hoje acaba seja a base do degrau que subimos amanhã.

domingo, 25 de setembro de 2016

A Infância

É a infância que volta a estar perante os meus olhos, perante o nosso olhar de pais. A vida passou a ter este sentido. Olhar para a infância é reviver o que já passou e agora volta a acontecer. É quase sempre assim, quando temos o privilégio de acompanhar o crescimento de uma criança. Vemos escorregas, baloiços, carrinhos, jogos, brinquedos, peluches, bolas, baldes, blocos de encaixe para construir, tudo aquilo que uma criança acaba por ter perto de si. Muitos episódios repetidos de bonecos animados, de coelhos gigantes a bombeiros salvadores, passando pelos inevitáveis animais de quinta, galinhas, porcos e afins, que agora surgem em todos os ecrãs, dos televisores aos telemóveis. As horas de lazer, as horas em que não estamos a trabalhar, são normalmente passadas nesta rotina infantil. Apenas mais uma forma da nossa infância regressar à nossa vida.

sábado, 17 de setembro de 2016

Madrugadas

A lua já vai alta nesta primeira madrugada após o início de mais um tempo novo. A passagem do tempo e o seu significado sempre foram o mote para a criação e para a produção de texto carregado de letras e de frases. Agora chegou o tempo de começar a dedicação ao tempo físico, à exigência e à concentração. À representação de um papel na vida real. É por isso que as entradas são cada vez menores e as aparições públicas cada vez menores. Poderá chegar o tempo em que seja possível regressar ao espaço público de uma forma mais fulgurante e significativa, se isso fizer algum sentido. Neste momento é a passagem do tempo que me ocupa, ponteiros de segundos a rodar. Este é o tempo das novas madrugadas de lua cheia alta e luzidia que entra pela janela da minha cozinha.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Recomeço

São férias grandes que acabam e passado uns tempos voltam, é o calor que fica na mesma. Há o recomeço natural do regresso à cidade, ao bairro, à rua. Desta vez o recomeço é um pouco diferente, bastante diferente, para dizer a verdade. Há mudanças a ocorrer a nível profissional, de processos que surgem de um momento para o outro, como acontece quase tudo. Pensa-se e tudo começa a acontecer. Desfazemos os planos e refazemos outros. Damos tudo, todo o tempo, para aproveitar uma situação que surge, aprender algo novo que ainda não sabemos fazer bem. A arte de gerir o tempo, de gerir um processo, de gerir uma equipa e voltar no dia seguinte para continuar a fazer tudo de novo. Como vai ser? Como irá acontecer o futuro? Não sabemos ainda, apenas sei que vou continuar a trabalhar para tornar o amanhã uma possibilidade. Vai acontecer.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Crescimento

Observar o crescimento de um filho poderá ser a maior dádiva que recebemos após a dádiva da nossa própria vida. Estamos a testemunhar a evolução e a progressão de um ser que já foi bebé e agora é uma criança que já anda, corre, cai e começa a comunicar connosco. No período de descanso semanal fomos até à vila turística voltada para o Atlântico, foram as festas da vila e aproveitámos para estar com mais família que contribuiu também para o crescimento. Houve danças ao som de música urbana, jogos de esconde-aparece, tropeções e galos na testa, houve molas de roupa como brinquedos, comida no chão e medo das ondas grandes. Ouvem-se as primeiras palavras: mais, não, avô, quero, mãe, papá. É no meio desta novidade que nos deitamos para mais um dia de trabalho, a relembrar o último fim de semana.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Dias do Sotavento

Os dias do sotavento algarvio passam ao ritmo da fase lunar. Estamos em quarto crescente e há ondas na praia e carreiros no mar. Há jogos olímpicos na televisão, primeiro a natação e a ginástica e agora começa o atletismo. O calor é o habitual para o mês em que estamos e felizmente o fumo dos incêndios de outros locais não se sente no ar. O calor é tanto que é habitual o ar condicionado estar ligado e as portas fechadas. Evita-se a praia a meio do dia e assim se descansa. À noite vamos a Ayamonte jantar tapas e petiscar, bebe-se cerveja fresca de calções e camisa de manga curta. Cresce a lua e começa-se a pensar no regresso a casa e ao trabalho. Ao ritmo diário que voltaremos a ter enquanto não chega outro período assim.

domingo, 7 de agosto de 2016

Do Ócio

Os dias têm passado à mesma velocidade de sempre e é quando chegamos a meio do período de descanso e pensamos que agora vão começar a passar mais rapidamente. Não vão e ainda falta muito até ao regresso a casa. A prática do ócio ainda está a meio do caminho. Até chegarmos ao fim o calor vai escaldando a areia da praia, o vento do fim da tarde sopra um pouco mais quando assim calha e adormece-se quando é hora de acordar para sair de casa. Descanso e poucas palavras. O destino recorrente respeita o ritmo do corpo dolente que adormeceu na noite anterior no sofá da sala. Estou sem horários e mantenho os mesmos hábitos, até na recusa de sair de casa até à praia porque sei que ela vai estar à minha espera um pouco mais tarde.

domingo, 31 de julho de 2016

Próximos Dias

Se formos a ver bem há quase sempre um ano que acaba e outro que recomeça quando vamos de férias. As férias são sempre um tempo de paragem, principalmente quando começa a existir uma rotina de férias. Há também uma rotina para as férias, pelo menos para quem a procura. Ano após ano, como noutros anteriores, fazemos as malas e rumamos para o mesmo destino de sempre. O mesmo é dizer que o sítio é o mesmo, as pessoas que nos acompanham são as mesmas, os cheiros e as gentes também, a areia e o mar também, o sol e a temperatura do ar, tudo o que nos faz recordar o que já passou. Serão assim também os próximos dias. Descanso de um ano com mais trabalho, em que o tempo voltou a passar rápido. É assim que vivemos e assim que envelhecemos, numa viagem para o sul, segunda terra do meu coração.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ao Contrário

Quando vamos ao contrário percebe-se melhor o caminho que fazemos quando vamos a favor. Caminhava a subir a escadaria do metropolitano perto do meu trabalho e fazia o caminho contrário ao habitual e reparei nas diferenças, na diferente perspectiva do espaço, da arquitectura, e cheguei ao meu destino habitual. Ao mudar a rotina, a forma como me desloco de um sítio para o outro, vejo a direcção que costumo fazer de uma outra maneira. Como se agora, como benefício, tivesse também a experiência das pessoas que vejo quando vou a favor, quando vou a caminhar da forma rotineira. Quando mudamos o sentido, a direcção, podemos estar apenas a afinar o rumo. Como se o contrário passasse a estar a favor, como antes o que era a favor passasse a ser contrário.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Quatro Anos

É curioso ler este texto passados quatro anos. É curioso porque com o tempo comecei a escrever um pouco mais sobre futebol, mas ainda assim é raro fazê-lo. Outra coisa curiosa é pensar que o texto escrito há quatro anos é muitíssimo actual, é só mudar o jogo para a final. O texto é premonitório e encerra uma crença. A crença que já existia naquele campeonato europeu de há quatro anos. Agora que somos campeões europeus é mais fácil dizer que tivemos razão antes do tempo e que o nosso país é eufórico-depressivo, sempre a duvidar das nossas qualidades enquanto povo, enquanto nação. A equipa da crença ganhou o torneio, tornou-se forte quando era fraca, soube ser paciente e estratégica depois de sofrer e defender o ataque das outras equipas. O remate do golo final é consequência do cabeceamento do primeiro golo do jogo anterior e do contra-ataque do golo do primeiro jogo a eliminar. Mas atenção que a crença e a esperança não são fáceis de praticar, dão muito trabalho.

sábado, 9 de julho de 2016

Reluzente

As pedras da calçada reluzem e brilham com a luz rarefeita deste sol de Verão. Caminho em direcção a mais um destino do meu dia. Vou contra o sol, contra o calor e o vento sopra, dando aquela falsa sensação de frescura. Mas a imagem que ressalta é mesmo a cor da luz do sol nas pedras brancas, efeito das lentes dos meus óculos escuros. Subo a rua que subia há muitos anos antes até à zona da casa da minha avó, onde vive a minha mãe e uma das minhas tias. Encontro a minha irmã que apareceu de surpresa para dar os parabéns ao afilhado, um dos meus primos. A família e o efeito da luz. A cor lilás reflectida e os anos que passaram entre os meus passos e os passos dos outros. Há também nesta luz reluzente aquela resposta que procuramos acerca da passagem do tempo e do que se mantém na nossa memória.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Origem do Nome

Todos nós começamos a ter noção do nosso nome muito cedo, mas demoramos mais tempo até perceber a sua origem. Hoje, na véspera do dia do santo que me deu o nome, é mais um dia para entender o princípio dessa nomeação. Foi nesta data, há trinta e cinco anos, que recebi o baptismo. Foi hoje há poucas horas que recebi a mensagem da minha mãe a pedir a protecção do santo que me dá nome. Esta história católica, que me chega através da tradição e da prática, significa que a minha origem é esta, a minha raiz é esta. É uma dádiva poder saber a nossa origem e saber que fomos protegidos desde o nascimento e que essa protecção é humana, através dos nossos pais e familiares, mas é sobretudo divina. Por esta razão agradeço mais uma vez este dia que passou, o dia em que fui entendendo cada vez melhor a origem do meu nome.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nostalgia Emocional

O melhor momento dos dias de concertos do festival a Norte foi a forma como o Panda Bear cantou a frase I will not give up on you da canção "Loch Raven". Não foi o melhor concerto do festival, nem de perto nem de longe, mas hoje em dia estou cada vez pior na avaliação de conjuntos e cada vez melhor na apreciação de momentos, modéstia à parte. E esse momento, o momento em que a canção ia sendo desfiada à minha frente e ouvia em loop aquela frase com a melodia toda inclusa, recordei outros tempos, outros momentos, outras idades, outras localidades, na forma de nostalgia emocional. Talvez um dia escreva sobre as recordações que tive num par de minutos que passaram como todos os minutos, agora apenas recordarei esse momento e a memória. Por vezes é preciso percorrer uma grande distância, um longo caminho, para num ou dois minutos a nossa vida voltar a ter sentido.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ao Norte

Já há algumas entradas terei escrito que este ano será o ano em que tenho acompanhado menos os lançamentos de álbuns e canções de artistas internacionais e nacionais. Para combater esta inércia, que se mistura com falta de tempo e falta de predisposição mental, decidimos por altura do Natal adquirir o único bilhete para um festival de Verão desta época que agora se aproxima. Por tradição e fidelidade a escolha recaiu no festival Primavera do Porto, até porque Barcelona exigiria outro tipo de logística, incomportável para o actual momento familiar. Apesar de muitos reveses, alguns deles bons, por haver outros eventos coincidentes, ainda será possível assistir a dois dias de concertos e um deles acompanhado. Dos festivais comerciais que nos são oferecidos este será quase sempre o mais independente ou alternativo, se é que isso ainda existe. De todo o cartaz há dois nomes que destaco por razões afectivas, Brian Wilson e os Animal Collective, por esta ordem, porque o primeiro é mais antigo e os segundos os mais novos. Duas razões mais que suficientes para mais uma deslocação ao Norte.

domingo, 29 de maio de 2016

Romantismo

O que impressionou naquele local foi o facto de ao pé da civilização pós-moderna surgir uma quinta cheia de lagos artificiais com carpas laranjas, plantas e árvores verdejantes num misto de romantismo bucólico e casa colonial. Ao longe víamos a cúpula do mega-fórum que é um gigante centro comercial e as tarjas das grande marcas de distribuição de bens de consumo da actualidade e ao mesmo tempo assistíamos ao casamento por debaixo das amoreiras e peixes a saltar nas piscinas de água doce esverdeadas. No meio dos jardins surgiam estátuas, palmeiras e ciprestes para completar aquele ambiente romântico. Se ao romantismo da casa juntarmos a celebração, a festa, a música e o fogo de artifício temos a receita perfeita para mais um casamento memorável.

sábado, 21 de maio de 2016

Noite Normal

Foi apenas há uma semana, descíamos os três em direcção ao Marquês de Pombal, a cantar e a sorrir, a celebrar mais uma conquista desportiva do maior clube de futebol português. Descíamos a avenida e depois fomos desviados para as ruas laterais, porque esta entrada estava cheia, rebentavam petardos ao pé de nós. Contornámos a praça até chegar à Liberdade. Nessa altura um dos elementos do nosso grupo foi para casa. Nós continuámos a tentar chegar mais perto. Antes disso, já perto do fim do jogo, cantámos o hino à varanda e gritámos o nome do nosso clube a quem passava lá em baixo na rua. A festa prometida chegou no fim, com a conquista do tricampeonato, apesar da vitória mais importante ter sido há mais de dois meses no estádio do principal adversário. Cheguei, enfim, ao Marquês. Nessa altura já estava sozinho e o autocarro com a equipa descia até à praça. Éramos milhares a cantar, a entoar os hinos e as canções. Ao som do ritmo dessas palavras os jogadores saltavam e agradeciam, agitando o espumante e mostrando a taça. Apenas a crónica de uma noite normal na vida de um tricampeão.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Escritos

A técnica é perder muito tempo a pensar naquilo que se vai escrever. Se não for assim há algo mais importante que nos capta a atenção e perdemos a linha de raciocínio e deitamos tudo a perder. Há uma semana atrás quando fez aquele calor imenso que parecia que o Inverno tinha acabado também tinha pensado em escrever uma entrada neste blogue, mas acabou por não acontecer. Entretanto a chuva já voltou, a chuva, o vento, tudo isso que entristece o coração, quando queremos passear. Mas apesar dessa chuva, desse vento, o passeio aconteceu, a paisagem reservou-nos o pôr do sol, os raios de luz entraram pela lente da máquina fotográfica do telemóvel para registar esse momento, cinco anos de momentos. São assim as entradas, os escritos deste blogue, que assim se irão manter até surgir algo novo, que o possa substituir.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Feriado de Descanso

O Abril que traz o sol da Primavera, as tempestades passageiras e o fascínio do meu filho com as crianças mais velhas. Ainda há umas semanas que o equilíbrio era dado por uma mão ou por apoio, quando agora já quase se corre no corredor e antes de chegar ao sofá, num movimento estilo mergulho, lança os braços para a frente para amortecer a chegada. São muitos momentos assim que têm acontecido, quase sempre captados pela retina e pela memória. Este súbito aquecimento do ar, como noutros anos passados recorda-nos sempre a aproximação dos meses mais quentes, solarengos e longos. Agora que já não é preciso o equilíbrio de outros tempos, as tempestades e os aguaceiros se dissiparão, comemoramos a sempre pontual passagem da vida com um feriado de descanso.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Demasiado Tarde

É óbvio que a vida muda. A mudança faz parte da vida e a própria vida é composta de mudança. É nesta verdade que vivo estes dias, como vivi outros dias em que havia tempo para quase tudo o que queríamos fazer. Agora há momentos de paragem no meio de uma tempestade granizada dentro do autocarro quase vazio. Durante o resto do tempo pensamos no trabalho que nos dão, no apoio que prestamos, nas respostas que nos pedem. Depois paramos em andamento e a chuva forte cria riachos no alcatrão e o verde do semáforo acende. Ainda há tempo, não é demasiado tarde?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Rumo à Independência

Seria provavelmente mais um dia sem uma entrada neste blogue, mas acabou por não ser assim. Há dias que vencemos o sono e despertamos antes de deitar, fazemos os nossos últimos afazeres, resumos de reuniões ou pagamentos bancários, e conseguimos ainda ter tempo para olhar para mais um dia que passou. Consigo recordar que queria ter escrito sobre o adiar dos relógios de há uma semana e meia atrás e como isso era uma hora perdida que era ganha depois. Porque o nosso filho iria começar a deitar-se mais tarde e acordar mais tarde e mudar de quarto e como isso acabou por não acontecer. Isso já é passado, mas é presente agora. Agora que já estamos no horário de Verão e o nosso filho já dorme no quarto dele e dá mais um passo rumo à independência. Hoje consegui fazer isso, parar, olhar e reflectir. Do despertar à independência quando chega o fim do dia.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Às Montanhas

Passou o tempo para escrever sobre o regresso, a maneira como regressei. O tempo passou, não parou, voou livre sem aterrar. Agora que paro e escrevo sobre isso até esboço um sorriso. Hoje, enquanto o meu filho dorme e a sua mãe trabalha até mais tarde, tenho tempo para reflectir e escrever. Há cada vez menos tempo para isso, como se a vontade e a necessidade fossem cada vez menores. Penso na forma como pretendo passar o resto do tempo até regressar às montanhas. Chego à conclusão que quero que o tempo passe rápido até lá. Sem perceber bem que até lá muito irá acontecer e como isso será bom. Até que esse tempo chegue escreverei às montanhas.